Sem ‘Faria Lima’, Norte e Nordeste lideram crescimento nas emissões do mercado de capitais
Debêntures, notas comerciais e notas promissórias movimentaram bilhões e colocam empresas da região em evidência

BELÉM (PA) – O coração do mercado financeiro brasileiro pulsa na Faria Lima, em São Paulo. Mas, silenciosamente, novos polos vêm se consolidando longe do eixo Rio-São Paulo. Nos últimos anos, Norte e Nordeste registraram o maior crescimento do país nas emissões de títulos de dívida corporativa, como debêntures, notas comerciais e notas promissórias, revelando uma tendência de descentralização do mercado de capitais.
Segundo dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), o Nordeste saltou de R$ 8,22 bilhões em emissões em 2020 para R$ 49,12 bilhões em 2024, um avanço de quase 500%. Já o Norte saiu de R$ 2,1 bilhões para R$ 15,05 bilhões no mesmo período, um crescimento de 614%, o maior entre todas as regiões. Para efeito de comparação, o Centro-Oeste avançou 405%, o Sudeste 236%, e o Sul 200%.
“À medida que empresas locais passam a emitir dívida via mercado de capitais, encontram uma base de investidores mais familiarizada com seus negócios. Essa proximidade aumenta a confiança e cria um círculo virtuoso de investimentos”, explica Luciane Effting, presidente do Fórum de Distribuição da Anbima.
Pará em destaque
O desempenho do Pará tem sido decisivo para os números do Norte. A força da mineração, o polo industrial da Zona Franca de Manaus e os investimentos em petróleo e gás no Amazonas e na Paraíba reforçam a dinâmica regional. Mas Belém, que receberá a COP30 em 2025, se tornou um centro de atenção por atrair investimentos em infraestrutura e logística, essenciais para preparar a capital paraense para o evento global.
Segundo Mario Perrone, head de investimentos do Banco do Brasil, “a agenda de investimentos em transporte, mobilidade e infraestrutura na Região Metropolitana de Belém, somada ao turismo e ao setor de serviços, tem sido um vetor fundamental para a expansão econômica local”.
Mais gestoras, mais assessores
O movimento também se reflete no lado institucional. Em 2019, o Nordeste contava com apenas oito gestoras de recursos; hoje já são 20. No Norte, até 2019 não havia nenhuma, mas agora já existem duas em operação. Um exemplo é a Finacap, gestora de Recife com quase 30 anos de atuação, que hoje administra R$ 2 bilhões e se diversificou de renda variável para gestão de patrimônio.
Outro indicador é a multiplicação de assessores de investimento. Dados da Ancord mostram que no Norte o número de assessores passou de 144 em 2020 para 370 em 2025, alta de 157%. No Nordeste, o salto foi de 969 para 1.983 no mesmo período, mais que dobrando a base. O Pará aparece entre os estados com maior crescimento percentual: +314% no número de assessores.
Familiaridade e confiança
Especialistas apontam que a lógica do “se eu conheço, eu compro” tem impulsionado investidores a apostar em empresas locais. O maior volume de emissões na região, aliado à expansão do número de assessores e escritórios, cria um ambiente propício para consolidar uma cultura de investimento regionalizada, antes restrita ao Sudeste.
Para Alexandre Brito, gestor da Finacap, a regulação mais rígida da CVM, como a norma 175, e os padrões de transparência da própria Anbima contribuíram para o amadurecimento do mercado:
“Assim como nos Estados Unidos após a crise de 2008, a exigência de maior transparência fortaleceu a relação fiduciária entre gestor e cliente. Isso ajuda a consolidar a confiança e a atrair novos investidores”.
Um mercado em transformação
Se em 2018 as regiões Norte e Nordeste somavam pouco mais de R$ 23 bilhões em emissões, em 2024 o volume ultrapassou R$ 64 bilhões. O crescimento, embora ainda represente uma fatia pequena frente ao Sudeste (com quase R$ 389 bilhões no mesmo ano), mostra que há espaço para descentralização do mercado financeiro brasileiro.

Belém e o Pará, com seus projetos estratégicos, se posicionam como protagonistas dessa nova fase, na qual os investidores olham cada vez mais para além da Faria Lima.
